{"id":198,"date":"2019-02-12T11:02:12","date_gmt":"2019-02-12T13:02:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/?p=198"},"modified":"2019-02-14T11:04:33","modified_gmt":"2019-02-14T13:04:33","slug":"entrevista-com-o-jazzista-tito-martino-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/2019\/02\/12\/entrevista-com-o-jazzista-tito-martino-2016\/","title":{"rendered":"Entrevista com o jazzista Tito Martino 2016"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Engenheiro Alberto Martino, o Tito Martino no mundo art\u00edstico, como clarinetista de Jazz tocou em New Orleans, em Washington, Nova York mais 12 cidades nos Estados Unidos, e em diversos Festivais de Jazz na Europa, onde residiu por dez anos at\u00e9 1992. Tem 8 LP&#8217;s gravados e cinco CD\u00b4s. O seu trabalho foi elogiado por respeitados cr\u00edticos de Jazz, com suas fotos publicadas no &#8220;New York Times&#8221;, no &#8220;Washington Post&#8221; e em revistas de Jazz europ\u00e9ias.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta:- Tito, quando voc\u00ea come\u00e7ou a tocar Jazz e porque?<\/strong><br><strong>Tito Martino:- Comecei a tocar banjo em 1957, como brincadeira de estudante, com um grupo de colegas do cursinho. No ano seguinte assisti da primeira fila um concerto de Louis Armstrong, em S\u00e3o Paulo; e assim fui batizado com os respingos do suor do Mestre do Jazz, descobr\u00ed que o Jazz Cl\u00e1ssico \u00e9 um tesouro cultural e me decid\u00ed a tocar s\u00e9riamente. Quando entrei no ITA, em 1958, um veterano me fez aprender a tocar clarinete de trote (ele era clarinetista) e assim comecei minha carreira de clarinetista de Jazz. Quando mudei para a Polit\u00e9cnica, em 59, comecei a criar meu primeiro conjunto, que depois batizei de Traditional Jazz Band, o original, do qual fui o band-leader durante 20 anos, at\u00e9 1983, quando mudei para a Europa. Voltei em 1993, e agora toco com o TITO MARTINO JAZZ BAND, que re\u00fane alguns dos melhores jazzistas brasileiros.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.:-Como voce consegue conciliar a atividade de Jazzista com a atividade de Engenheiro?<\/strong><br><strong>T.M.:- Do mesmo modo que consigo respirar e escrever ao mesmo tempo. N\u00e3o penso que sejam duas atividades contradit\u00f3rias que precisem ser &#8220;conciliadas&#8221;. O esp\u00edrito humano \u00e9 muito vasto para ser limitado em currais especializados. Continuo at\u00e9 hoje a atuar na engenharia el\u00e9trica, como consultor na \u00e1rea de Consultoria de Efici\u00eancia Energ\u00e9tica. Para mim \u00e9 importante porque trata-se de uma atividade com um componente de contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade: preserva\u00e7\u00e3o ambiental, uso racional da eletricidade com vistas \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, combate ao desperd\u00edcio.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.:- Ent\u00e3o o que \u00e9 mais importante para voc\u00ea, a Engenharia ou o Jazz?<\/strong><br><strong>T.M.:- Penso que tanto a Engenharia como o Jazz s\u00e3o atividades circunstanciais se consideradas dentro de uma perspectiva mais ampla de vida. O que realmente importa \u00e9 o ser humano e a sua trajet\u00f3ria pela vida, o que voc\u00ea consegue fazer a partir de todos os seus recursos pessoais, questionamentos, talentos e defici\u00eancias. Portanto, penso que ser engenheiro ou m\u00e9dico ou padeiro n\u00e3o \u00e9 mais importante que ser carteiro ou jornalista ou presidente, e nada impede que um engenheiro seja tambem jazzista, pintor, escritor, alpinista, motociclista, cozinheiro e psic\u00f3logo, tudo ao mesmo tempo, se isto lhe faz sentido. Depende s\u00f3 de querer&#8230; &#8230;e poder.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Tito, o que \u00e9 o Jazz? Onde e quando nasceu?<\/strong><br><strong>Tito Martino:- O Jazz \u00e9 um terremoto musical que se propagou pelo mundo a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo 20. O epicentro deste terremoto musical foi localizado em New Orleans, na foz do Rio Mississippi. As ra\u00edzes do Jazz s\u00e3o os Blues, o Ragtime, os Spirituals, que s\u00e3o formas musicais afro-americanas. Mas tamb\u00e9m marchas de rua, can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas espanholas, francesas e inglesas. Sem d\u00favida h\u00e1 muita improvisa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma improvisa\u00e7\u00e3o dirigida, organizada, com limites musicais muito bem definidos. No Jazz \u00e9 mais importante como se toca do que o que se toca.&nbsp;<\/strong><br><strong>O temp\u00earo mais forte \u00e9 o ritmo e o balan\u00e7o dos maravilhosos tambores tribais africanos. Este \u00e9 o Jazz autentico, sem mistura de componentes musicais comerciais, sem influencia da ind\u00fastria da can\u00e7\u00e3o popular norte-americana, nem do cinema hollywoodiano, o cinema deixou no grande p\u00fablico uma imagem completamente deturpada do Jazz. Musicos criativos podem se inspirar no Jazz e inventar mil diferentes variantes, como de fato surgiu o Be-Bop, a Bossa Nova, o Funk, o Fusion, etc. etc. Todas s\u00e3o formas v\u00e1lidas e boas de ouvir e de tocar, e tem seu p\u00fablico. Mas chamar de Jazz estas variantes \u00e9 uma afronta \u00e0 Cultura. O Hermeto Paschoal, que \u00e9 um g\u00eanio criativo, d\u00e1 boas gargalhadas quando alguem chama de Jazz a m\u00fasica que ele cria. Mas ele j\u00e1 tocou Jazz comigo, pois sabe muito bem a diferen\u00e7a. O Jazz aut\u00eantico, que \u00e9 o Jazz de Raiz, \u00e9 hoje cultivado e tocado no mundo inteiro por milhares de Jazz Bands e apreciado por um publico muito especial que lota dezenas de Festivais de Jazz Tradicional atraindo at\u00e9 100 mil ou 120 mil pessoas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Quando o Jazz chegou no Brasil?<\/strong><br><strong>T.M.:- O Jazz come\u00e7ou a ser divulgado no mundo a partir do dia da primeira grava\u00e7\u00e3o, em 1917. Os primeiros discos de Jazz certamente chegaram ao Brasil nessa \u00e9poca, importados para a classe mais privilegiada, que j\u00e1 tinha acesso ao fon\u00f3grafo. Em 1919 um conjunto de Jazz de New Orleans j\u00e1 excursionava pela Europa; mas no Brasil a primeira banda que chegou ao Rio de Janeiro foi a de Benny Payne, em 1926, seguida pelos Chocolate Dandies de Sam Wooding, em 1927. Nos anos 20 Pixinguinha, com o seu conjunto Oito Batutas, esteve em Paris onde &#8220;descobriu&#8221; o Jazz e ficou empolgado. Foi de l\u00e1 que ele trouxe o saxofone, o banjo e a bateria de jazz. \u00c9 a partir dessa \u00e9poca que muitos conjuntos brasileiros de Samba e Ch\u00f4ro passaram a se auto-intitular &#8220;Jazz-Band&#8221;, embora n\u00e3o tocassem nada de Jazz.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Ent\u00e3o qual foi a primeira banda de Jazz brasileira, digo Jazz de verdade?<\/strong><br><strong>T.M.:- \u00c9 dif\u00edcil responder, porque a partir de 1930 v\u00e1rias bandas amadoras surgiram, tocando n\u00e3o se sabe bem o que. Quem escreveu s\u00f4bre isso foi Lucio Rangel, Jorge Guinle, S\u00e9rgio Porto, Edoardo Vidossich. Mas tivemos em S\u00e3o Paulo os Sophisticated Swingers, em 1947, e o Paulistania Jazz Band em 1954, com Booker Pittman.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Fale um pouco do seus \u00faltimos CDs.<\/strong><br><strong>T.M.:- O penultino chama-se &#8220;Classical Jazz Today&#8221; porque \u00e9 um espelho do Jazz Tradicional como pode ser tocado hoje por jazzistas conscientes e talentosos. O ultimo \u00e9 o &#8220;Jazz Jubilee&#8221;, reunindo minhas melhores grava\u00e7\u00f5es em 40 anos, de 1967 a 2007. Tenho absoluta certeza de que estes CDs podem ser mostrados com orgulho em qualquer clube de cr\u00edticos de Jazz, em qualquer lugar do mundo. Afinal, j\u00e1 tocamos no Festival de Jazz de New Orleans e fomos considerados pelos especialistas locais como sendo a melhor banda estrangeira. A minha experiencia tocando em doze cidades norteamericanas, e em Festivais de Jazz na Argentina e na Europa permite afirmar com seguran\u00e7a que estes CDs tem categoria internacional. Os CDs n\u00e3o tem distribui\u00e7\u00e3o em lojas; s\u00f3 est\u00e3o \u00e0 venda nos nossos locais de apresenta\u00e7\u00e3o ou por encomenda.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.:- Voc\u00ea se considera um bom musico?<\/strong><br><strong>T.M.:- N\u00e3o, eu n\u00e3o sou musico, sou um Jazzista. Ser musico \u00e9 uma profiss\u00e3o; ser Jazzista \u00e9 como se fosse uma religi\u00e3o &#8211; mas o Jazzista tamb\u00e9m atua profissinalmente. O musico segue uma partitura; mas o Jazzista cria, decide o que vai tocar, n\u00e3o usa partitura, inventa mentalmente sua propria partitura no momento da interpreta\u00e7\u00e3o, pois improvisa e dialoga musicalmente com seus companheiros. Dentro de crit\u00e9rios convencionais, eu seria considerado um musico med\u00edocre pois mal sei ler partituras e n\u00e3o tive educa\u00e7\u00e3o musical formal; e note bem, nisto n\u00e3o sou diferente de muitos dos pioneiros do Jazz de New Orleans, nem de alguns Jazzistas profissionais de grande sucesso da atualidade que mal sabem ler partituras.&nbsp;<\/strong><br><strong>Mas dentro dos parametros do Jazz Cl\u00e1ssico, o Jazz de Raiz, receb\u00ed muitos elogios de cr\u00edticos famosos e respeitad\u00edssimos que publicaram minhas fotos como o John Wilson, do New York Times, que disse que tenho meu pr\u00f3prio estilo, ou o Hal Willard, do Washington Post, e de outros cr\u00edticos europeus. Ent\u00e3o sou for\u00e7ado a acreditar neles.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Com quais jazzistas c\u00e9lebres voc\u00ea j\u00e1 tocou?<\/strong><br><strong>T.M.:- Aqu\u00ed em S\u00e3o Paulo, com Oscar Peterson, Teddy Wilson, Cat Anderson, Bob Wilber, Rufus Jones; e nos Estados Unidos, com os Dukes of Dixieland, Roy Eldridge, Louis Barbarin, Alvin Alcorn; na Sui\u00e7a, com o grande Louis Nelson, trombonista de New Orleans, e o clarinetista ingl\u00eas Sammy Rimington. Foram grandes momentos. Ninguem estava tocando para provar nada;&nbsp;<\/strong><br><strong>s\u00f3 porque gostamos de &#8220;conversar&#8221; no mesmo idioma musical &#8211; o Jazz Cl\u00e1ssico de New Orleans. O Oscar Peterson disse ao consul norteamericano depois de tocar conosco: &#8220;I can\u00b4t believe! It looks like my days in Chicago!&#8221;. Por pura sorte, esta Jam Session foi gravada. Tambem a Jam com Louis Nelson, no Festival de Jazz de Ascona, na Sui\u00e7a. E foi na Sui\u00e7a que o Hermeto me chamou ao palco para eu tocar um tema de Jazz com ele e o Grupo dele. E tocou um autentico Blues no piano, que eu acompanhei muito \u00e0 vontade. Os meninos (como ele costuma chamar) do Grupo arregalaram o olho pois n\u00e3o esperavam isso! Mas logo sa\u00edram acompanhando e tudo deu certo.<\/strong><br><strong>Em New Orleans toquei com a forma\u00e7\u00e3o renovada do Dukes of Dixieland, numa jam-session, e ao terminar, o grande pistonista afro-americano Alvin Alcorn (tocou na banda do pioneiro Kid Ory) bateu no meu ombro e disse : &#8220;Sabe o que, baixinho? Voce \u00e9 negro por dentro&#8221;. Foi o maior elogio que recebi na minha carreira de jazzista.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.:-Onde voc\u00ea tem tocado?\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>T.M.:-Minha agenda de apresenta\u00e7\u00f5es est\u00e1 no\u00a0site TITO MARTINO JAZZ BAND que pode ser acessado neste link \u00a0\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/\" target=\"_blank\">www.titomartinojazz.com.br<\/a>&#8221;\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Quando ser\u00e1 seu pr\u00f3ximo Concerto importante?<\/strong><br><strong>T.M.:- Para mim a pr\u00f3xima apresenta\u00e7\u00e3o seja onde for \u00e9 a mais importante!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>P:- Que mensagem voc\u00ea quer deixar para os nossos leitores?<\/strong><br><strong>Tito Martino:- Queria que todos soubessem que o Jazz \u00e9 entretenimento, sim, \u00e9 divers\u00e3o, mas \u00e9 tamb\u00e9m um tesouro cultural &#8230; \u00e9 Musica em sua plenitude&#8230;. \u00e9 repleto de hist\u00f3ria, anedotas, sensualidade, espiritualidade, emo\u00e7\u00e3o, alegria, melancolia, poesia, paradoxos, imprevistos, fantasia e dura realidade; e tudo isso aparece em nossos Shows ! O bom Jazz lava a alma! Mas aten\u00e7\u00e3o, Jazz n\u00e3o \u00e9 &#8220;qualquer musica com nome de jazz&#8221; ! N\u00e3o basta ser virtuose num instrumento para tocar jazz autentico. \u00c9 preciso conhecer a hist\u00f3ria e a sintaxe musical do Jazz Autentico, e principalmente, ter SWING! O grande &#8220;Duke&#8221; Ellington dizia: &#8220;It don\u00b4t mean a\u00b4thing if it ain\u00b4t got THAT swing&#8221;. Que eu traduzo assim: &#8220;N\u00e3o \u00e9 Jazz e n\u00e3o vale nada se n\u00e3o tiver &#8220;ESTE&#8221; swing&#8221; !&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Engenheiro Alberto Martino, o Tito Martino no mundo art\u00edstico, como clarinetista de Jazz tocou em New Orleans, em Washington, Nova York mais 12 cidades nos Estados Unidos, e em diversos Festivais de Jazz na Europa, onde residiu por dez&#8230; <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/2019\/02\/12\/entrevista-com-o-jazzista-tito-martino-2016\/\">Continue Reading &rarr;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-galeria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":237,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions\/237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}