{"id":369,"date":"2019-12-30T08:10:21","date_gmt":"2019-12-30T11:10:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/?p=369"},"modified":"2019-12-30T08:21:44","modified_gmt":"2019-12-30T11:21:44","slug":"encontros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.titomartinojazz.com.br\/cms\/2019\/12\/30\/encontros\/","title":{"rendered":"Encontros&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>Meu encontro prof\u00e9tico com BOOKER PITTMAN, um dos grandes do Jazz.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia muito pouca gente sabe quem foi o Booker. Nasceu em 3 de maio de 1909 em Maryland, USA, e morreu dia 19 de outubro de 1969, em S\u00e3o Paulo. Ele tocava clarinete, saxofone alto e saxofone soprano, de uma forma brilhante, num estilo bem Kansas City, foi elogiado por importantes criticos de Jazz europeus e americanos. Tocou e gravou com os grandes, Count Basie, Armstrong, Lucky Millinder, Blanche Calloway. Gravou v\u00e1rios discos com diversas jazz-bands em Buenos Aires, e tenho essas grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Conheci o Buca pessoalmente na ultima jam-session das Folhas, devia ser 1962, quando ele apresentou pela primeira vez como cantora a filha adotiva, Eliana. A sala estava lotada, eu sentei na beirada do palco e me encantei com o saxofone soprano, a ponto de considerar comprar um e tocar.<br>Falei com o Buca, ele me deu e autografou o programa manuscrito daquele show, que n\u00e3o sei onde foi parar, e comecei uma boa amizade com ele, que viajava muito entre S\u00e3o Paulo e Rio.<br>Bem que tentei que me desse umas dicas, mas a \u00fanica coisa que falou foi &#8220;Play, man, just feel and play!&#8221;. Foi o que sempre fiz.<br>Esperei uma chance de tocar com ele, nem que fosse numa jam, mas nunca aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi sobre ele a primeira vez em 1957, quando conhec\u00ed no cursinho Anglo Latino meu grande amigo e meu guru do Jazz, o Peter Dakowski, que tocou com ele em 1955 e 56, com o pessoal do S\u00e3o Paulo Dixielanders. Eles haviam resgatado o Buca do ex\u00edlio numa cidadezinha nos confins do Paran\u00e1, e fizeram ele tocar de novo. Segundo contavam, o Philippe Corcodel, o trombonista, era caixeiro viajante e passou por essa cidadezinha; de noite, no hotel, ouviu uma bandinha tocando numa prociss\u00e3o da igreja local, e no meio da musica tinha um clarinete endiabrado fazendo improvisa\u00e7\u00f5es incriveis sobre os hinos. Ele desceu correndo e descobriu que era um mulato com fala arrastada e sotaque americano, que identificou-se como Booker Pittman, Philippe imediatamente o convidou para ir a S\u00e3o Paulo e se integrar na sua Banda, com o que relutantemente, Booker concordou. Assim recome\u00e7ou a carreira do Buca, que havia sido dado como morto em um artigo do critico franc\u00eas Hugues Panassi\u00e9 na revista Jazz Hot.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Louis Armstrong esteve no Brasil em 1957, no aeroporto foi atacado por um rep\u00f3rter hist\u00e9rico que lhe enfiou o microfone no l\u00e1bio. Por sorte se recuperou e deu um show na noite seguinte no Gin\u00e1sio Ibirapuera. Eu estava l\u00e1, com o Peter Dakowski, e me surpreendi quando, depois de terminado o Show, ainda durante os aplausos tonitruantes reverberando na acustica de caverna do Gin\u00e1sio, vi o Buca subir no palco e ser abra\u00e7ado como velho amigo pelo Satch. Logo ele virou para sua banda, contou dois tempos, e atacaram um tema que n\u00e3o lembro mais qual foi, mas me parecia estar ouvindo os antigos duelos do Satch com o Bechet! A confus\u00e3o era grande, e n\u00e3o consegui chegar perto para abra\u00e7ar o Buca nem o Satch (este abracei anos mais tarde).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando acontecia de eu ir tocar no Rio com a forma\u00e7\u00e3o original do Traditional Jazz Band, sempre dava uma escapada e ia visitar o Buca no seu apartamento da rua Barata Ribeiro. Da ultima vez, acho que foi em 1969, quando gravei um blues e um spiritual na TV com a Elis Regina e o Mariano, eu nem toquei a campainha: tirei o clarinete e toquei um chamado de bugle.<br>Ouvi ele gritar com voz abafada, l\u00e1 de dentro:&#8221;Of\u00e9lia, abre a porta, \u00e9 o baixinho!&#8221;. Ele estava muito mal, c\u00e2ncer na garganta, quase n\u00e3o conseguia falar.<br>Of\u00e9lia me disse que ele estava proibido de tocar pelo m\u00e9dico. Mas falar ainda podia, e sentamos na sala e me contou um monte de hist\u00f3rias de sua carreira, mostrando p\u00e1ginas manuscritas; &#8220;estou escrevendo minha biografia!&#8221;.<br>Na verdade a biografia saiu postumamente, mas cheia de inverdades e invencionices colocadas por pessoas que influenciaram muito mal a vida do Buca. Ele tinha um cora\u00e7\u00e3o imenso, ing\u00eanuo e simpl\u00f3rio, e algumas pessoas que tocaram com ele me fofocaram maldosamente que ele foi usado como plataforma de lan\u00e7amento profissional para sua talentosa e linda filha adotiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Me fez sinal de silencio e sub-repticiamente tirou de baixo de um arm\u00e1rio uma garrafa de pinga e deu um trago direto na garrafa. Me ofereceu, recusei, obrigado, ele disse: &#8220;A Of\u00e9lia n\u00e3o pode saber!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fez silencio um momento, e me disse &#8220;Tito, vem ver uma coisa no meu quarto&#8221;. &#8220;Ei, Buca, que novidade \u00e9 essa?!&#8221;. Mas eu o acompanhei. Ele abriu a porta de um guarda-roupa e tirou tr\u00eas cases de saxofones Selmer novinhos: um tenor, um alto e um soprano. Colocou em cima da cama e me disse, meio sem jeito: &#8220;Olha Tito, esses dois eu conhe\u00e7o, mas no soprano eu nunca toquei. Voc\u00ea pode dar uma tocadinha pra eu ver como \u00e9 o som dele?&#8221; Bom, confesso que fiquei emocionado, n\u00e3o sabia o que dizer, mesmo porque nunca tinha tocado um soprano. Ele montou a boquilha e me deu, eu soprei, saiu um som forte e brilhante, ele deu um grande sorriso, e a Of\u00e9lia veio correndo da cozinha &#8220;Buca, para com isso, o m\u00e9dico proibiu!&#8221; mas deu meia volta quando viu que era eu. Buca olhou para mim, bateu no meu ombro e disse &#8220;\u00c9 isso a\u00ed baixinho, soprano vai ser teu instrumento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois de uns meses ele morreu em S\u00e3o Paulo. Saiu no jornal que o \u00fanico musico presente no Aeroporto de Congonhas na despedida de Booker Pittman, quando do traslado do caix\u00e3o para o Rio, era o clarinetista paulistano Tito Martino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu encontro prof\u00e9tico com BOOKER PITTMAN, um dos grandes do Jazz. Hoje em dia muito pouca gente sabe quem foi o Booker. 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